Texto de pedido de apoio e inscrição na seleção para o Bicicultura 2016, que vai acontecer em São Paulo, de 26 a 29 de maio de 2016.
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“Feminismo, Maternidade e Cicloativismo: as experiências pessoais de uma Mãe que trocou o carro pela bicicleta na cidade do Recife.”
A proposta consiste em relato de experiências vividas por uma mãe solteira de duas crianças (06 e 11 anos) que passou a utilizar a bicicleta como principal meio de transporte em uma cidade do Nordeste pouco acolhedora às pautas cicloativistas.
O uso da bicicleta como meio de transporte é bastante defasado na mulheres em função de vários temores impostos pela cultura patriarcal, que não nos livra dos assédios e do medo (e real possibilidade) de estupro. O medo do trânsito, para muitas, acaba por não ter nem tanta força quanto a força dos medos aos quais as mulheres são submetidas desde meninas, e que acabam sendo fundamentais para elas no impedimento do uso da bicicleta como meio de transporte.
Depois que as mulheres têm filhxs, a coisa piora: nossa cultura não quer que as mães ocupem seus espaços nas ruas. E usar a bicicleta significa afirmar que sim, as mães também querem ocupar seus espaços além do âmbito privado. É como se ser mãe significasse que esta mulher viva exclusivamente em função de filhxs.
Além disso, há o fato da responsabilidade sobre as crianças ser praticamente toda das mulheres na nossa cultura, o que faz com que ela tenha que assumir, na maioria das vezes sozinha – afinal, são muitas as “mães solteiras” ou mesmo casadas que não contam com uma divisão justa de tarefas com relação à criação de filhxs – toda a logística com relação às idas e vindas das crianças, e isto implica em uma maior utilização do transporte coletivo (se ela não tem condições de adquirir um carro) do que o uso da bicicleta por estas mulheres, por acreditarem que a bicicleta não é um transporte viável para mães, especialmente as que possuem mais de uma criança.
Mães ciclistas são julgadas como “loucas” por estarem “expondo” as crianças à violência do trânsito, como se não houvesse violência no uso de outros modais. É mais uma forma de tentar nos manter em ambientes apenas privados, como é pré-determinado por nossa cultura.

As experiências a serem apresentadas vêm de uma mulher branca e nordestina de classe média (eu mesma), que nasceu dentro de uma cultura carrocrata e patriarcal, e passou, ao longo de três anos e meio de cicloativismo (incorporados aos 8 anos de ativismo dentro do movimento Feminista e do movimento pela Humanização do Parto), a incorporar novos paradigmas na sua vida e na vida de seus filhos.
Importante frisar que mães são absolutamente invisibilizadas dentro de nossa sociedade. Não dispomos de espaços públicos receptivos às nossas crianças, não dispomos de suporte vindo do estado com relação à infra-estrutura para estudar e trabalhar (hotelzinho e creches públicas), em eventos de todos os tipos sempre esquecem de incluir as mulheres que são mães e que não contam com qualquer tipo de suporte social, pensando em um ambiente que possa também acolher suas crianças. Em atividades ativistas, considero que este suporte seja fundamental, visto que as mães são a principal referência das crianças para uma real mudança de cultura. São elas quem verdadeiramente educam estes novos ativistas. Se locais que visam essa desconstrução cultural não se voltam também às crianças, estimulando-as a também adquirirem senso crítico e serem futuros agentes ativos (e, melhor, naturalmente ativos, pois crescerão sem precisar desconstruir muita coisa, em função da educação que recebem hoje, que já é voltada a todas as desconstruções possíveis), não estamos fazendo muito por essa mudança que tanto se almeja.
Finalizando, a proposta é de apresentação de experiências relacionadas à bicicleta e intermodalidade (sendo a bicicleta o principal meio de transporte atualmente), incluindo a experiência de inserir nas crianças a cultura da bicicleta (e, consequentemente, no meio social deles, pois numa escola onde só se chegam alunos/as de carro, chegar de bike já quebra muitos conceitos com uma simples visualização desta “chegada incomum”), fazendo sempre os importantes e necessários recortes de gênero durante a apresentação, com auxílio apenas de computador/projetor para exibição de apresentação em PowerPoint e, se possível, som, para ilustração das falas com fotos e vídeos.
Proposta de tempo e formato: 45 minutos de apresentação + rodada de debate pós-apresentação.
Se for possível incluir as duas crianças no evento (inclusive custeio de translado e hospedagem em local que caibam as três pessoas), seria excelente. Primeiro, pela falta de suporte social ao qual se fez referência no texto acima. Segundo (e MUITO importante), por motivos também já expostos, de incluir crianças em eventos que visam desconstruções culturais, com o intuito de incentivo ao uso da bicicleta e, consequentemente, ajudar na formação de agentes ativos mirins desta mudança. Caso seja possível, podemos pensar na possibilidade de incluir o relato deles na apresentação, o que seria bastante incomum, bonito e interessante.
Se não for possível, sem problemas. Mães sempre dão um jeito. :)))
Atenciosamente,
Paty Sampaio L’été, Mãe de Yago (11 anos) e Nina (06 anos)
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