Cansada. Esse é o termo.
Cansada de um Feminismo de fachada por parte de muitas feministas que não conseguem sair da sua zona de conforto e não conseguem/querem apoiar outras mulheres que estejam em uma condição de vulnerabilidade e opressão maior do que a delas próprias. Nem se esforçam para enxergar isso, inclusive.
Cansada de um Feminismo de Facebook, que marca azamiga em postagens lindas, mas que, na prática, ainda está a léguas de QUERER ajudar verdadeiramente mulheres que precisam de apoio.
Cansada de ver um Feminismo sem filhos, que esquece o fato de que a grande maioria das mulheres que são mães são seres extremamente solitários e sobrecarregados de funções, em especial as mães-solo feministas, que precisam arcar sozinhas (quase nunca por uma escolha própria) e solitariamente com toda a função da tripla jornada e da criação de crianças dentro de uma ideologia feminista de educação doméstica, que será o verdadeiro vetor de uma mudança cultural definitiva, que fará com que essa mudança que o Feminismo almeja REALMENTE aconteça, através da formação doméstica desses novos seres humanos.
Cansada de um Feminismo branco, que esquece que a maioria das mães solteiras nesse país são mulheres negras, duplamente solitárias, pois, além das funções solitárias de mãe-solo descritas acima, ainda carregam nas costas toda
a solidão que acompanha a vida das mulheres negras e que faz com que estas sejam
maioria dentro do grupo social das mães-solteiras que carregam o mundo sozinhas nas suas costas.
Cansada de um Feminismo de elite, que esquece que estas Mulheres-Negras-Mães-Solo são, na sua grande maioria, mulheres pobres, que precisam fazer das tripas coração para, literalmente, alimentar suas crianças e a si própria dentro de um contexto que só privilegia quem tem dinheiro.
Cansada de um Feminismo Pró-Legalização do Aborto, mas que não consegue ser um Feminismo Pró-Mãe, ou seja, cansada de um Feminismo que
não inclui a maioria das mulheres do Brasil e que, quando tenta fazê-lo, só o faz no discurso, mas não se esforça para melhorar a situação de vida dessas mulheres e nem, muito menos, pensa na importante contribuição que elas poderiam ajudar a dar na criação dessas novas pessoinhas. Porque criança aprende mais com a visualização dos
exemplos do que com ensinamentos teóricos. E, se essas crianças não vêem mulheres que se apoiam, acima de tudo, junto das suas mães, como é que as pessoas querem que essas crianças passem acreditar na ideologia feminista, enquanto a própria mãe delas está sozinha, comendo o pão que o diabo amassou, deseducando todos os dias essas crianças de toda a carga cultural nociva que elas trazem para casa, sem apoio de ninguém, NEM daquelas pessoas que "dizem" apoiar todas as mulheres?
Cansada de ouvir uma feminista dizer que uma companheira de militância é "doida". Como se não bastasse o patriarcado falar isso para nós a vida toda, lá nos vêm mulheres - pasmem! - que dizem defender mulheres falar isso de uma outra companheira pelas costas. Em termos de quem sofre com transtornos neuroatípicos, afirmo que, além de
misoginia, isso também tem outro nome:
capacitismo. E eu espero sempre que mulheres não reproduzam esse comportamento patriarcal e normativo de se referir a mulheres como "histéricas", "loucas" e "descompensadas", especialmente sabendo que uma parte ENORME de nós desenvolveu transtornos emocionais em função das inúmeras violências às quais fomos submetidas durante toda uma existência. Essas vivências deixam marcas, sabem? Não minimizem essas dores. Não sejam capacitistas.
Cansada de jogo de PODER dentro de movimentos de mulheres. Mais uma reprodução fiel do que o patriarcado faz e que está sendo imitado por mulheres que lutam pela causa das mulheres.
***
É muito difícil ser Feminista e acreditar na ideologia feminista como se essa ideologia fosse uma religião, mas, ao mesmo tempo, perceber que só brancas e sem filhos têm direito ao apoio de brancas e sem filhos, ou seja, as "iguais em grupo" têm
sororidade para com as suas.
Sororidade seletiva, como bem descreveu Stephanie Ribeiro. Muitas vezes, acho que o termo
sororidade deveria ser excluído do dicionário e da língua de muitas mulheres que são feministas, mas que não fazem o menor esforço para serem empáticas e enxergarem a sua própria situação de conforto. Não se percebe nem solidariedade direito, quanto mais sororidade, que é uma expressão bem mais profunda. Sororidade é a utopia feminista. Usem essa palavra com moderação. Apliquem primeiro e falem depois, fica a dica.
Pois...
...Não deveria nos contemplar um ativismo raso, sabem?
...Não deveria nos contemplar um ativismo que não pode fazer o mínimo de sacrifício por outra pessoa, sabem?
...Não deveria nos contemplar apenas o discurso. Esquerdomacho é mestre em discurso, sabem?
...Não deveria nos contemplar a frase
"é que eu não tenho jeito com crianças", que é a principal arma do patriarcado para manter os homens devidamente e confortavelmente afastados de suas responsabilidades na criação destas pessoas (mesmo que não sejam pais) dentro da sociedade. Boa parte das mulheres também não tinha jeito com crianças antes de terem uma para criar, e nem por isso perderam um pé ou uma mão ao terem que lidar, diariamente, com estes seres maravilhosos e que nos ensinam todos os dias. Aprendam a aprender com as crianças. Elas têm muito mais a ensinar a vocês do que vocês pensam. Vamos começar a pensar numa espécie de "criação coletiva" dessas pessoinhas?
...Não deveria nos contemplar sermos mães apoiada
apenas por MÃES, cada uma mais sobrecarregada do que a outra, mas que procuram ainda fazer um esforço acima do humanamente possível para que outra mãe se estrepe um pouco menos. Isso não tem o menor sentido, porque parte do princípio de NÃO SER JUSTO. Questão até de disponibilidade de tempo, sabem? Falando assim, do básico mesmo.
...Não deveria nos contemplar um ativismo sem esforço de todas as pessoas, um ativismo que prefere ficar "tretando" com macho no Facebook e tomando cachaça à noite na farra cazamiga - tudo feminista branca sem filhos - enquanto uma MULHER está sozinha em casa ouvindo gritos de crianças que berram "você é uma mãe muito chata! a culpa é sua!", numa sexta-feira à noite, sem dinheiro nem para o leite no final do mês, depois de uma semana de trabalho INTENSO, EXAUSTIVO e, muitas vezes, NÃO REMUNERADO, sem ninguém NEM para desabafar sua vontade de "
largar tudo".
Porque mães não podem nem cogitar a ideia de FALAR em "largar tudo" (às vezes dito no auge do desespero, mas que fica apenas no plano do desabafo mesmo), já que, se elas fizerem isso, ainda têm possibilidade de serem julgadas e apontadas por pessoas da sociedade padrão e do próprio meio feminista.
Possibilidade, inclusive, de serem denunciadas ao Conselho Tutelar, por ~acharem~ que elas são mães
negligentes ou
pouco amorosas, porque não criam seus filhos da mesma forma que todo mundo está acostumado a ver e que não tiveram, por exemplo, tempo de lavar a farda da escola ~na mão~ para tirar manchas que não saem. Aliás, elas muitas vezes optam, ao invés disso, por ficarem abraçadas aos filhos vendo filme, conversando e comendo pipoca quando chegam do trabalho, já que têm pouco tempo no dia juntos, sabem?
Ou, mesmo, julgadas porque não prenderam o cabelo crespo/cacheado da filha negra antes dela ir para a escola. Afinal, cabelo crespo solto ao vento, sem estar devidamente "dominado" é cabelo "bagunçado", e cabelo "bagunçado", para algumas pessoas "padrão" (racistas mesmo), significa que essa mãe está sendo negligente com a sua filha.
E essas mães
não têm com quem desabafar,
pessoalmente, sobre essas coisas que incomodam a todas nós, feministas. Porque elas estão
sozinhas. Porque as companheiras de movimento (que poderiam estar dando este ombro amigo) estão na cachaça sagrada da sexta-feira e do sábado à noite. E - entendam - isso não precisaria ser "obrigação semanal". Na verdade, isso não precisaria ser nem
obrigação. Deveria ser feito por AMOR, por amor ÀS MULHERES. Vir de dentro. Sentir prazer ao estar junto de outra mulher que precisa de alguém junto. Sem cobranças. Afinal, amor de irmã não se cobra, não é verdade?
Eu tenho um sonho. Sonho com o dia que o Feminismo deixe de ser apenas um discurso bonito na boca de muitas feministas e de '
homens verdadeiramente apoiadores da causa' (alguém tem provas de que eles existem?), e que a Sororidade deixe de ser uma utopia.
***
PS: Tenho poucos nomes que me fazem acreditar que isto pode ser real para todas, mas tenho sim esses precedentes, graças às deusas. Conto nos dedos de uma mão. Mas tenho. E dedico este texto a uma dessas pessoas, que, apesar de ser uma feminista branca e sem filhos, consegue - sim! - ser feminista na prática e não sente necessidade de sair fazendo discurso por aí de suas ações de sororidade (o que eu acho que ela tem todo o direito de fazer, e que, se ela um dia decidir por fazer, terá todo o meu apoio e divulgação, pois servirá ao movimento, já que serve de exemplo às outras, sabem?). Ela está conseguindo me mostrar que
amar e apoiar mulheres em todas as suas dores, alegrias e prazeres é sim, possível, em um momento em que eu estava quase descrente de tudo, momento em que o que me segurava na crença em um mundo melhor para as mulheres eram apenas as minhas próprias ações feministas solitárias a anônimas de apoio a mulheres que precisam do meu apoio.
Obrigada, Flor. <3