sexta-feira, 27 de maio de 2016

A dor de ser mulher



No dia 25 todas as feministas adoeceram. Morreram um pouco por dentro. Foi divulgado na imprensa um estupro coletivo contra uma menina de 16 anos, por 33 homens, dentre eles, um que ela se relacionava há três anos. Sim, TRINTA E TRÊS HOMENS violentando uma criança chamada Helena. Não satisfeitos em estuprar, foram mais longe: filmaram o crime e divulgaram no Twitter. E as imagens dessa atrocidade foram compartilhadas por muitos outros homens que acharam "engraçado".

Nos comentários das matérias, o de sempre: culpabilização da vítima. Sempre a mesma ladainha. Sempre pessoas tentando justificar o crime com a colocação inadequeada de que eles "são psicopatas, monstros, doentes".

Não são.

São homens. Como seu pai, como seu irmão, como seu primo, como seu tio. HOMENS. 

Homens que recebem da cultura um respaldo enorme para fazerem o que fizeram. Homens que são ensinados desde cedo a serem predadores sexuais de mulheres, que são ensinados desde muito cedo que o corpo das mulheres é um bem público, que pertence a eles, e, por isso, eles podem fazer com esse corpo-objeto o que bem entendem.

Homens NORMAIS. Que subjugam e acham que humilhar mulheres é papel deles na sociedade. Homens normais que odeiam mulheres, como muitos que existem.

Quando nós falamos em educação feminista das crianças, nós batemos nessa tecla: ensinem seus meninos a não serem predadores, não ensinem suas meninas a se protegerem dos homens. Parem, de uma vez por todas, de enfatizar estereótipos de gênero na sua educação, pois isso é um grande fator causal dessa cultura do estupro em que nós, mulheres, precisamos aprender a sobreviver. Parem de falar "prenda sua cabrita, que meu bode está solto!". Parem de falar "beija ela, paquera ela" pros seus meninos. Parem de falar "e tu por acaso é uma menina, é?" quando seu filho chorar. Apenas: PAREM.

Não queremos textão de feministos. Não queremos apoio da escrita pra fora. Não precisamos de homens falando o que não fazem.

Pare e pense: o que você tem realmente feito para exterminar essa cultura de violência contra as mulheres nos seus grupos de amigos homens? Sério mesmo. Você já parou de explorar sua mãe, como se ela fosse uma escrava doméstica sua? Você coloca sua indignação quando seus amigos homens compartilham ou falam piadas misóginas? Pense bem. Tem muito o que fazer, sem precisar ser da boca pra fora apenas. É feio, vocês que fazem isso são bem queimados junto às mulheres que sabem quem vocês realmente são, então, por favor, parem de pedir biscoito às mulheres fingindo nos apoiar. AJAM. Não defenda seu amigo abusador de mulheres em trasporte público. Foda com ele, na verdade. Aliás, se você é tão apoiador das causas das mulheres, como é que você consegue ser amigo de um agressor de mulheres? Pense nisso.

E faça a real diferença nessa luta. Porque nós temos crianças, meninas, que estão expostas a tudo isso, desde já, e não importa a idade, sabem? A maioria das histórias de terror que nós, mulheres, vivenciamos começa na infância. Começamos a temer vocês muito, mas muito cedo. Vocês não fazem ideia do que é ter medo de um semelhante. Não fazem ideia do pavor que é imaginar ser estuprada, e mudar A VIDA para prevenção disso. Viver em função desse medo.

Todo meu apoio, minha dor compartilhada, meu abraço, minhas lágrimas, a essa menina Helena, que teve sua vida absolutamente estraçalhada a partir da violência à qual foi - e continua sendo, através da exposição e culpabilização - submetida.

Estamos todas de luto.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ressignificando as Mães

Hoje eu me deparei com esse texto fantástico a respeito do histórico relacionado ao Dia das Mães, sobre significados simbólicos e culturais da maternidade que encobrem e mascaram a verdadeira realidade que nós, mães, vivemos. Vivemos em meio a uma realidade mascarada que tenta nos manter dentro de um padrão absolutamente opressor do que é SER MULHER e do que é SER MÃE, e que nos julga, condena e crucifica ao sairmos desse "padrão ideal de maternidade" que não foi escolhido por muitas de nós. Vale muito a leitura, apesar de ser textão hohoho

;)

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Por Bruna Barlach - Revista Vírus

(Ilustrações originais: Didi Helene e Iconoclasistas)

Logo após se esgotarem os ovos de páscoa, as lojas correm para tirar os coelhos e mudar a decoração das vitrines. Outdoors nos chamam para aproveitar a promoção imperdível no shopping center mais próximo. Em nossa caixa de e-mails há uma chuva de spam com "promoções imperdíveis" para celebrar este dia tão especial. Fotos e mais fotos de mães (brancas, magras, cisgêneras e heterossexuais) com bebês, normalmente vestidas de branco (símbolo da pureza) e com flores. Não há dúvidas: o dia das mães está aí e é hora de celebrar o amor maternal, de preferência com presentes.

Origens e paradoxos

Essa imagem que podemos ver hoje do dia das mães, no entanto, está muito longe da ideia que originou a data nos EUA. Por incrível que pareça, o dia das mães tem sua origem das mulheres trabalhadoras. Objetivando diminuir a mortalidade das crianças das famílias de trabalhadores, a ativista Ann Marie Reeves Jarvis criou em 1858 o Mothers Days Works Clubs (algo como Clube de trabalho do dia das mães). Em 1865 ela organizou o Mother's Friendship Days (dias de amizade para as mães), com o objetivo de ajudar os feridos na Guerra da Secessão. Não que Ann Marie Reeves fosse uma revolucionária aos moldes que hoje em dia entendemos a palavra. De fato, ela era uma mulher devota à Igreja Metodista, foi mãe de 12 filhos (ainda que apenas 4 tenham sobrevivido até a idade adulta) e tudo que organizou foi através dos braços de sua Igreja. No entanto, para sua época, a "mãe do dia das mães", como ficou conhecida, conseguiu promover ações revolucionárias, sendo uma das responsáveis pela reconciliação dos dois lados que lutavam na guerra.

Não foi Ann Marie Reeves que criou o dia das mães, de fato, este dia foi conquistado pela sua filha numa grande luta para homenagear sua mãe e a luta que ela tinha travado durante a vida. Ann Marie Jarvis conseguiu, após anos de luta, que o dia fosse reconhecido pela lei no ano de 1914. Ao contrário do que podemos imaginar vendo o dia das mães hoje, a própria idealizadora do dia, após ver o capitalismo se apropriando do feriado para gerar mais lucros, se afastou de sua criação e passou o resto dos seus dias lutando para que este feriado deixasse de existir. Em suas palavras "um cartão impresso não significa nada mais que você é muito preguiçoso para escrever para a mulher que fez mais por você que qualquer outra pessoa no mundo. E tortas! Você leva uma caixa para a Mãe, e então come tudo você mesmo. Um belo sentimento!"

Já no Brasil a data logo de início, quando foi instituída pelo então presidente Getúlio Vargas, em 1932, esta esteve ligada ao movimento de mulheres liberais, nada revolucionário, que viam nesta data, assim como o presidente, uma forma de legitimar a "função social da mulher", ou seja, ser mãe. Feliz ficou o comércio que já há muitos anos tem o dia das mães como a data mais lucrativa para vendas do ano, perdendo somente para o Natal.
Imposição? Escolha? Função Social da Mulher* ?

Esta ideia de que a maternidade é a função social da mulher tem sido utilizada pelo patriarcado para subjugar as mulheres e colocá-las numa condição de subalternidade há centenas de anos. É claro que para manter o status e a importância, numa sociedade polissêmica, ou seja, carregada de sentidos, como a nossa, não basta impor a maternidade às mulheres, é preciso cobrir a maternidade de pompa e status. Quem nunca ouviu que a mulher só é completa quando se torna mãe? Que ser mãe é a melhor coisa do mundo? Que uma mulher que não tem filhos não cumpriu sua função no mundo?

A capacidade de conceber a vida é sim algo fundamental para que a humanidade continue a existir, quanto a isso não há dúvidas. Não só seres humanos, todos os seres vivos procriam. Mas só os seres humanos se tornam mães. Essa pequena palavra, carregada de significados sociais, históricos e políticos é ouvida e dita pela maioria de nós sem maiores reflexões. Mas o que torna uma pessoa mãe? É a escolha? É a obrigação? É o destino por se ter um aparelho reprodutor? Por que essa imposição recai especificamente sobre as mulheres, se é preciso para a concepção óvulo e espermatozoide? Por que, após a concepção, as obrigações recaem sobre as mulheres. As obrigações e a culpabilização, tanto pela escolha da maternidade como pela escolha em não ser mãe.

Escolha ter filhos ou escolha não ter filhos a culpa recairá sobre as mulheres. Ainda que ser mãe seja considerada a função social das mulheres ela é para as mulheres heterossexuais, casadas, jovens e com o mínimo de estabilidade financeira. E, é claro, desde que esta se demonstre uma mãe-modelo. Porque, a partir do momento que você aceita o cumprimento desta função, você estará eternamente sob o julgo da sociedade. Tem que ser uma boa mãe. E o que é uma boa mãe? É a mãe que encara a maternidade com resignação. Enfrenta o seu dever sem gritar. É aquela que nunca perde a paciência com os filhos. Ah, e boa mãe é aquela que abdica da vida pra ser mãe. Mulher, não, agora ela é mãe. Mãe não tem anseios pessoais, mãe não tem desejos sexuais, mãe não existe como ser. Mãe é mãe e pronto, não? Tente uma mãe sair destes moldes e vão chover todos os tipos de insultos e intromissões em sua vida, afinal, essa daí não presta pra ser mãe.

Mães são realmente pessoas fundamentais e por isso, ser mãe tem que ser uma escolha e uma escolha dada a todas as pessoas. Inclusive para as mulheres trans. Inclusive para a mulher negra, pra mulher pobre, para aquela mulher que tem que ouvir que só tem filhos pra receber benefício do governo. E ter filhos também tem que ser um direito garantido aos homens trans, assim como o direito de serem reconhecidos como homens mesmo mantendo seu útero e ovários. Ser mãe é também direito das mulheres lésbicas, sejam solteiras ou casadas com outra mulher. Ser mãe também é direito das mulheres não monogâmicas, assim como é direito delas criarem seus filhos dentro de quaisquer arranjos parentais que julguem corretos. Aliás, julgar o que é correto para a maternidade deve ser direito inalienável de todas as pessoas que escolhem a maternidade. E escolher não ser mãe é tão importante quanto. E nenhum dessas escolhas cabe a ninguém além da mulher ou pessoa que é dona de seu próprio corpo.

Empoderar as mães e empoderar as mulheres que não querem ser mães é uma luta fundamental do feminismo e deve ser uma luta para todas as pessoas que buscam uma sociedade mais justa e igualitária. Não existe humanidade sem reprodução da espécie, mas não existe liberdade sem a libertação das mulheres de suas correntes sociais. Para todos os seres e não-seres possíveis. Maternidade é hoje a palavra de ordem, seja pela afirmação, pela negação, e especialmente, pela sua ressignificação.


*é preciso destacar que a autora reconhece e defende o direito dos homens trans gerarem filhos ou não gerarem filhos, ou seja, todos os direitos reprodutivos devem ser garantidos tanto para homens quanto para mulheres trans, assim como direito à registro de paternidade/maternidade.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Uma brasileira desbravando as Américas de bicicleta

Juli Hirata. Biológa apaixonada por bicicleta. Pois foi. Ela foi ~simbora~ e iniciou um projeto lindamente corajoso, de percorrer as duas Américas através de seus extremos, do extremo norte da América do Norte (Alasca) ao extremo sul da América do Sul (Ushuaia - Argentina). Como sabemos que a quantidade de mulheres que pedalam mundo a fora é bem menor do que a de homens, é mais do que digno e necessário divulgar aqui o feito desta mulher inspiradora.



Ela procura por uma pergunta para seus estudos científicos na área em que escolheu trabalhar. Ela pode até nem encontrar essa pergunta, mas é certeza absoluta de que ela vai se dar (e nos dar também) muitas respostas após esses anos de cicloviagem solitária e empoderadora que iniciou há pouco.

Sorte, Juli! Estaremos aqui acompanhando e nos inspirando em você! <3

Acompanhe a cicloviagem de Juli AQUI.

Ela também tem InstagramFacebook, Twitter, YouTube e Pinterest. Dá para acompanhar tudo direitinho, e ficar sonhando com o dia em farei a mesma coisa quando as crianças estiverem maiores, sabem? *.*

Juli no Alaska

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sobre transtornos neuropáticos

Já faz um tempo que sinto sempre necessidade de falar sobre este assunto. É um tabu ainda conversar sobre depressão, transtorno de ansiedade, bipolaridade, borderline, suicídio. Mas precisamos falar sobre isso, visto que esses transtornos acometem muitas mulheres, em função, também, das diversas violências de gênero às quais somos submetidas desde crianças. Há, normalmente, uma somatização de fatores que desencadeiam o desenvolvimento destes quadros. Hoje vou falar de uma forma que tente aproximar outras pessoas de aspectos que são gerais e comuns na maioria das pessoas que possuem alguma peculiaridade emocional diferente do que se considera como padrão, mas baseada em minhas próprias sensações e sentimentos.

Eu sou portadora de transtorno de ansiedade e depressão. Também possuo traços Borderline. E, digo, é muito difícil viver com isso. Muito. Nossa capacidade de autoboicote e autossabotagem é IMENSA. Por mais que a gente tente trabalhar nossa mente para afastar os pensamentos criados pela crise, quem não traz consigo esses transtornos não faz a menor ideia do quanto é difícil lutar contra a força da nossa própria mente. É um exercício exaustivo tentar tirar a penumbra que cerceia nossos pensamentos, que os distorcem, que nos fazem acreditar que somos pessoas pouco amadas, incompetentes em tudo, que não merecemos o amor e o carinho das pessoas. Em crise, acreditamos nisso com uma certeza tão grande, que fica difícil, inclusive, da gente mesma se amar. Há momentos em que nós mesmas não nos suportamos, e o diabinho dos transtornos fica buzinando o tempo inteiro no nosso ouvido "se você mesma não gosta de você, por acaso vai achar que alguém possa gostar?!?!"

Esse diabinho cresce. Ele é alimentado por nós mesmas, por nossos pensamentos e por quaisquer coisas que dão errado na nossa vida. Ele é alimentado, também, pelas palavras e atitudes das pessoas e a nossa própria - e, algumas vezes, distorcida - interpretação dessas palavras e atitudes. A culpa é enorme. Culpa por não nos sentirmos amadas (apesar das demonstrações de amor que recebemos), culpa por essas coisas que dão errado, culpa por termos o(s) transtorno(s) (como se tivéssemos culpa disso!), culpa por acharmos que afastamos as pessoas, culpa por TUDO. E a culpa vai sempre aumentando essa porrada na nossa autoestima. E vira um círculo vicioso de autodestruição.



E esse diabinho é químico. Ele é produzido por nossas próprias enzimas e também cresce pela falta de produção de outras. Por isso, sim, é doença, precisa ser vista e tratada como tal. Para algumas pessoas, medicações são suficientes. Para outras, há a necessidade de outras terapêuticas alternativas. A bicicleta, por exemplo, tem sido uma grande aliada na minha própria luta pessoal contra a influência dos transtornos. Recomendo DEMAIS. Pedalar é VIDA, mas isso é bem individual, e cada pessoa vai buscando e encontrando suas próprias técnicas de reação. Sendo bem importante frisar que a terapia convencional (com profissionais da área de psicologia) é boa para todas as pessoas, inclusive as que não têm nenhum transtorno diagnosticado. Porque, infelizmente, este nosso mundo adoece mesmo as pessoas não têm predisposições (orgânica e genética) que facilitam uma alteração de nosso equilíbrio emocional. Autoconhecimento é bom para todo mundo. Mas, para quem tem transtornos de comportamento, autoconhecimento é fundamental.

Para completar, muitas de nós, além de sofrer nossos próprios sofrimentos relacionados à vida pessoal, sofremos o sofrimento do mundo, queremos ajudar as pessoas a não sofrerem tanto, queremos estar no lugar dessas pessoas para que elas se livrem daquilo que as incomoda, queremos dividir esses sofrimentos na intenção de diminuir o sofrimento dessas pessoas. Porque de sofrimento a gente entende, sabe? E não queríamos que outras pessoas passassem pelo que a gente passa. Nem que para isso a gente assuma uma dor que nem é nossa, e passe a sofrer mais com aquilo também. E sim, isso é involuntário. Para não nos envolvermos, teríamos que deixar de nos envolver com as pessoas, nos isolar do mundo, o que seria muito pior para nossa saúde emocional.

E, para completar mais ainda, algumas pessoas sofrem influência climática externa para piorar sua situação emocional. Isso é tão verdade que os índices de suicídio em países frios é bastante alto, mesmo que sejam países onde a qualidade de vida é excelente, apesar dessa informação não ser consenso científico. Porém, SOL é, literalmente, VIDA para muitas de nós. Dias nublados e tempestuosos ajudam muitas mentes nubladas e tempestuosas a manterem mais fortes esse estado de escuridão, insegurança, tristeza, angústia e dor na alma. Se você vir uma pessoa depressiva na rua em um dia cinza, pode ter certeza de que ela fez das tripas coração para estar ali.

Em crise, tudo fica confuso, conturbado, difícil. Todos os problemas triplicam de tamanho e ficam insuportáveis de carregar. Decisões simples tornam-se um sofrimento sem fim. Coração acelera, doem as costas, vontade de chorar compulsivamente, sem parar. A cabeça começa a pesar uma tonelada e esse peso é realmente sentido, fica difícil até tirar a cabeça do travesseiro, sabem? Uma sensação terrível de que não há solução mais para nada - e daí iniciam-se os pensamentos suicidas - que, eu, particularmente, consigo controlar em função da existência de meus filhos <3. Então, sinal de alerta! Porque sim, o risco de morte existe e é alto. Mas praticamente TODAS as pessoas neuroatípicas, normalmente, sinalizam esse desespero e essa vontade de morrer. Fiquem sempre atentos/as aos sinais e nunca duvidem de que essa intenção pode se consolidar um dia. Pode sim, infelizmente. Mas, se houver interferência em tempo hábil, esse risco cai em 80%. Não esperem acontecer. Ajam. Suicídio tem prevenção e depende MUITO da influência de outras pessoas no momento certo.

Portanto, o nosso cérebro não pára. É muita atividade cerebral. Daí vem a insônia, por exemplo, que vai enchendo e agravando essa bola de neve de confusão mental e excesso de atividade cerebral negativa. Isso cansa MUITO, inclusive fisicamente. Muitas vezes não conseguimos reagir à força dessa atividade. Não conseguimos, inclusive, levantar da cama, de tão cansadas que estamos. E nos sentimos mal imaginando o julgamento das pessoas por essa (falta de?) reação, achamos logo que vão falar que é "fraqueza", e, na nossa cultura, não podemos ser "fracas", pois ~o mundo é dos fortes~. O corpo pede socorro e pára. Mas a mente não. E haja porrada em cima de porrada, dadas por nós mesmas em um cérebro que já está convalescente. A carga é enorme. A sensação de solidão é maior ainda, porque, na maioria das vezes, não queremos expor nossas "fraquezas" (cof cof), temos muitos medos, e um deles é o de que as pessoas se afastem de nós e nos julguem como "loucas" (olá, patriarcado!) e, por isso, evitamos nos expor. Pedir ajuda, também, significa "incomodar" para muitas de nós. E detestamos incomodar, porque nos sentimos, muitas vezes, como uma espécie de "estorvo" na vida das pessoas. Então, por esses motivos, é comum que nossa reação seja a do isolamento mesmo.



Portanto, se vocês conhecem uma pessoa que seja portadora de algum transtorno neuroatípico (especialmente mulher), tenham paciência. Tentem entender que o cérebro dessa pessoa, quando em crise, é o pior inimigo dela, e ajudem essa pessoa, especialmente tendo cuidado com a forma como você fala e com o que você fala para ela. Ajude-nos a diminuir um pouco o fardo que é carregar essa luta interna de vencer a nós mesmas dentro de um contexto de doença x saúde emocional.

Como eu já disse antes, nós, pessoas neuroatípicas, somos nossas piores inimigas. Não alimentem essa face inimiga, não ajudem a fortalecê-la, e nos ajudem com o nosso propósito de melhorar nossa autoestima, que é o principal elemento que nos vai dar força para lutar contra o nosso 'eu' sombrio. E - principalmente - não se afastem de nós. No fim das contas, nós somos pessoas legais. :))) Eu sempre prefiro dizer que somos pessoas que, apenas, possuem algumas peculiaridades especiais nos tratos com as emoções, que precisam deixar de ser tabu, para que obtenhamos mais compreensão e apoio por parte do mundo que não faz ideia do que é SER e SENTIR assim, de forma tão intensa. ;-)

Nossa saúde agradece. <3

PS: queres um exemplo lindo de uma forma muito legal de falar conosco e da linguagem que nos faz bem? Clica AQUI e leia esse texto de amor. É muito disso que precisamos. Acolhimento. Amor. Cuidado. Abraço. Colo. Porque não é fácil sermos nós.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Mais uma Feminista Cansada falando sobre SORORIDADE

Cansada. Esse é o termo.




Cansada de um Feminismo de fachada por parte de muitas feministas que não conseguem sair da sua zona de conforto e não conseguem/querem apoiar outras mulheres que estejam em uma condição de vulnerabilidade e opressão maior do que a delas próprias. Nem se esforçam para enxergar isso, inclusive.

Cansada de um Feminismo de Facebook, que marca azamiga em postagens lindas, mas que, na prática, ainda está a léguas de QUERER ajudar verdadeiramente mulheres que precisam de apoio.

Cansada de ver um Feminismo sem filhos, que esquece o fato de que a grande maioria das mulheres que são mães são seres extremamente solitários e sobrecarregados de funções, em especial as mães-solo feministas, que precisam arcar sozinhas (quase nunca por uma escolha própria) e solitariamente com toda a função da tripla jornada e da criação de crianças dentro de uma ideologia feminista de educação doméstica, que será o verdadeiro vetor de uma mudança cultural definitiva, que fará com que essa mudança que o Feminismo almeja REALMENTE aconteça, através da formação doméstica desses novos seres humanos.


Cansada de um Feminismo branco, que esquece que a maioria das mães solteiras nesse país são mulheres negras, duplamente solitárias, pois, além das funções solitárias de mãe-solo descritas acima, ainda carregam nas costas toda a solidão que acompanha a vida das mulheres negras e que faz com que estas sejam maioria dentro do grupo social das mães-solteiras que carregam o mundo sozinhas nas suas costas.

Cansada de um Feminismo de elite, que esquece que estas Mulheres-Negras-Mães-Solo são, na sua grande maioria, mulheres pobres, que precisam fazer das tripas coração para, literalmente, alimentar suas crianças e a si própria dentro de um contexto que só privilegia quem tem dinheiro.

Cansada de um Feminismo Pró-Legalização do Aborto, mas que não consegue ser um Feminismo Pró-Mãe, ou seja, cansada de um Feminismo que não inclui a maioria das mulheres do Brasil e que, quando tenta fazê-lo, só o faz no discurso, mas não se esforça para melhorar a situação de vida dessas mulheres e nem, muito menos, pensa na importante contribuição que elas poderiam ajudar a dar na criação dessas novas pessoinhas. Porque criança aprende mais com a visualização dos exemplos do que com ensinamentos teóricos. E, se essas crianças não vêem mulheres que se apoiam, acima de tudo, junto das suas mães, como é que as pessoas querem que essas crianças passem acreditar na ideologia feminista, enquanto a própria mãe delas está sozinha, comendo o pão que o diabo amassou, deseducando todos os dias essas crianças de toda a carga cultural nociva que elas trazem para casa, sem apoio de ninguém, NEM daquelas pessoas que "dizem" apoiar todas as mulheres?

Cansada de ouvir uma feminista dizer que uma companheira de militância é "doida". Como se não bastasse o patriarcado falar isso para nós a vida toda, lá nos vêm mulheres - pasmem! - que dizem defender mulheres falar isso de uma outra companheira pelas costas. Em termos de quem sofre com transtornos neuroatípicos, afirmo que, além de misoginia, isso também tem outro nome: capacitismo. E eu espero sempre que mulheres não reproduzam esse comportamento patriarcal e normativo de se referir a mulheres como "histéricas", "loucas" e "descompensadas", especialmente sabendo que uma parte ENORME de nós desenvolveu transtornos emocionais em função das inúmeras violências às quais fomos submetidas durante toda uma existência. Essas vivências deixam marcas, sabem? Não minimizem essas dores. Não sejam capacitistas.


Cansada de jogo de PODER dentro de movimentos de mulheres. Mais uma reprodução fiel do que o patriarcado faz e que está sendo imitado por mulheres que lutam pela causa das mulheres.


***

É muito difícil ser Feminista e acreditar na ideologia feminista como se essa ideologia fosse uma religião, mas, ao mesmo tempo, perceber que só brancas e sem filhos têm direito ao apoio de brancas e sem filhos, ou seja, as "iguais em grupo" têm sororidade para com as suas. Sororidade seletiva, como bem descreveu Stephanie Ribeiro. Muitas vezes, acho que o termo sororidade deveria ser excluído do dicionário e da língua de muitas mulheres que são feministas, mas que não fazem o menor esforço para serem empáticas e enxergarem a sua própria situação de conforto. Não se percebe nem solidariedade direito, quanto mais sororidade, que é uma expressão bem mais profunda. Sororidade é a utopia feminista. Usem essa palavra com moderação. Apliquem primeiro e falem depois, fica a dica.

Pois...

...Não deveria nos contemplar um ativismo raso, sabem?

...Não deveria nos contemplar um ativismo que não pode fazer o mínimo de sacrifício por outra pessoa, sabem?

...Não deveria nos contemplar apenas o discurso. Esquerdomacho é mestre em discurso, sabem?

...Não deveria nos contemplar a frase "é que eu não tenho jeito com crianças", que é a principal arma do patriarcado para manter os homens devidamente e confortavelmente afastados de suas responsabilidades na criação destas pessoas (mesmo que não sejam pais) dentro da sociedade. Boa parte das mulheres também não tinha jeito com crianças antes de terem uma para criar, e nem por isso perderam um pé ou uma mão ao terem que lidar, diariamente, com estes seres maravilhosos e que nos ensinam todos os dias. Aprendam a aprender com as crianças. Elas têm muito mais a ensinar a vocês do que vocês pensam. Vamos começar a pensar numa espécie de "criação coletiva" dessas pessoinhas?



...Não deveria nos contemplar sermos mães apoiada apenas por MÃES, cada uma mais sobrecarregada do que a outra, mas que procuram ainda fazer um esforço acima do humanamente possível para que outra mãe se estrepe um pouco menos. Isso não tem o menor sentido, porque parte do princípio de NÃO SER JUSTO. Questão até de disponibilidade de tempo, sabem? Falando assim, do básico mesmo.

...Não deveria nos contemplar um ativismo sem esforço de todas as pessoas, um ativismo que prefere ficar "tretando" com macho no Facebook e tomando cachaça à noite na farra cazamiga - tudo feminista branca sem filhos -  enquanto uma MULHER está sozinha em casa ouvindo gritos de crianças que berram "você é uma mãe muito chata! a culpa é sua!", numa sexta-feira à noite, sem dinheiro nem para o leite no final do mês, depois de uma semana de trabalho INTENSO, EXAUSTIVO e, muitas vezes, NÃO REMUNERADO, sem ninguém NEM para desabafar sua vontade de "largar tudo".

Porque mães não podem nem cogitar a ideia de FALAR em "largar tudo" (às vezes dito no auge do desespero, mas que fica apenas no plano do desabafo mesmo), já que, se elas fizerem isso, ainda têm possibilidade de serem julgadas e apontadas por pessoas da sociedade padrão e do próprio meio feminista.

Possibilidade, inclusive, de serem denunciadas ao Conselho Tutelar, por ~acharem~ que elas são mães negligentes ou pouco amorosas, porque não criam seus filhos da mesma forma que todo mundo está acostumado a ver e que não tiveram, por exemplo, tempo de lavar a farda da escola ~na mão~ para tirar manchas que não saem. Aliás, elas muitas vezes optam, ao invés disso, por ficarem abraçadas aos filhos vendo filme, conversando e comendo pipoca quando chegam do trabalho, já que têm pouco tempo no dia juntos, sabem?

Ou, mesmo, julgadas porque não prenderam o cabelo crespo/cacheado da filha negra antes dela ir para a escola. Afinal, cabelo crespo solto ao vento, sem estar devidamente "dominado" é cabelo "bagunçado", e cabelo "bagunçado", para algumas pessoas "padrão" (racistas mesmo), significa que essa mãe está sendo negligente com a sua filha.

E essas mães não têm com quem desabafar, pessoalmente, sobre essas coisas que incomodam a todas nós, feministas. Porque elas estão sozinhas. Porque as companheiras de movimento (que poderiam estar dando este ombro amigo) estão na cachaça sagrada da sexta-feira e do sábado à noite. E - entendam - isso não precisaria ser "obrigação semanal". Na verdade, isso não precisaria ser nem obrigação. Deveria ser feito por AMOR, por amor ÀS MULHERES. Vir de dentro. Sentir prazer ao estar junto de outra mulher que precisa de alguém junto. Sem cobranças. Afinal, amor de irmã não se cobra, não é verdade?

Eu tenho um sonho. Sonho com o dia que o Feminismo deixe de ser apenas um discurso bonito na boca de muitas feministas e de 'homens verdadeiramente apoiadores da causa' (alguém tem provas de que eles existem?), e que a Sororidade deixe de ser uma utopia.


***
PS: Tenho poucos nomes que me fazem acreditar que isto pode ser real para todas, mas tenho sim esses precedentes, graças às deusas. Conto nos dedos de uma mão. Mas tenho. E dedico este texto a uma dessas pessoas, que, apesar de ser uma feminista branca e sem filhos, consegue - sim! - ser feminista na prática e não sente necessidade de sair fazendo discurso por aí de suas ações de sororidade (o que eu acho que ela tem todo o direito de fazer, e que, se ela um dia decidir por fazer, terá todo o meu apoio e divulgação, pois servirá ao movimento, já que serve de exemplo às outras, sabem?). Ela está conseguindo me mostrar que amar e apoiar mulheres em todas as suas dores, alegrias e prazeres é sim, possível, em um momento em que eu estava quase descrente de tudo, momento em que o que me segurava na crença em um mundo melhor para as mulheres eram apenas as minhas próprias ações feministas solitárias a anônimas de apoio a mulheres que precisam do meu apoio.

Obrigada, Flor. <3