Hoje eu me deparei com esse texto fantástico a respeito do histórico relacionado ao Dia das Mães, sobre significados simbólicos e culturais da maternidade que encobrem e mascaram a verdadeira realidade que nós, mães, vivemos. Vivemos em meio a uma realidade mascarada que tenta nos manter dentro de um padrão absolutamente opressor do que é SER MULHER e do que é SER MÃE, e que nos julga, condena e crucifica ao sairmos desse "padrão ideal de maternidade" que não foi escolhido por muitas de nós. Vale muito a leitura, apesar de ser textão hohoho
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Por Bruna Barlach - Revista Vírus
(Ilustrações originais: Didi Helene e Iconoclasistas)
Logo após se esgotarem os ovos de páscoa, as lojas correm para tirar os coelhos e mudar a decoração das vitrines. Outdoors nos chamam para aproveitar a promoção imperdível no shopping center mais próximo. Em nossa caixa de e-mails há uma chuva de spam com "promoções imperdíveis" para celebrar este dia tão especial. Fotos e mais fotos de mães (brancas, magras, cisgêneras e heterossexuais) com bebês, normalmente vestidas de branco (símbolo da pureza) e com flores. Não há dúvidas: o dia das mães está aí e é hora de celebrar o amor maternal, de preferência com presentes.
Origens e paradoxos
Essa imagem que podemos ver hoje do dia das mães, no entanto, está muito longe da ideia que originou a data nos EUA. Por incrível que pareça, o dia das mães tem sua origem das mulheres trabalhadoras. Objetivando diminuir a mortalidade das crianças das famílias de trabalhadores, a ativista Ann Marie Reeves Jarvis criou em 1858 o Mothers Days Works Clubs (algo como Clube de trabalho do dia das mães). Em 1865 ela organizou o Mother's Friendship Days (dias de amizade para as mães), com o objetivo de ajudar os feridos na Guerra da Secessão. Não que Ann Marie Reeves fosse uma revolucionária aos moldes que hoje em dia entendemos a palavra. De fato, ela era uma mulher devota à Igreja Metodista, foi mãe de 12 filhos (ainda que apenas 4 tenham sobrevivido até a idade adulta) e tudo que organizou foi através dos braços de sua Igreja. No entanto, para sua época, a "mãe do dia das mães", como ficou conhecida, conseguiu promover ações revolucionárias, sendo uma das responsáveis pela reconciliação dos dois lados que lutavam na guerra.
Não foi Ann Marie Reeves que criou o dia das mães, de fato, este dia foi conquistado pela sua filha numa grande luta para homenagear sua mãe e a luta que ela tinha travado durante a vida. Ann Marie Jarvis conseguiu, após anos de luta, que o dia fosse reconhecido pela lei no ano de 1914. Ao contrário do que podemos imaginar vendo o dia das mães hoje, a própria idealizadora do dia, após ver o capitalismo se apropriando do feriado para gerar mais lucros, se afastou de sua criação e passou o resto dos seus dias lutando para que este feriado deixasse de existir. Em suas palavras "um cartão impresso não significa nada mais que você é muito preguiçoso para escrever para a mulher que fez mais por você que qualquer outra pessoa no mundo. E tortas! Você leva uma caixa para a Mãe, e então come tudo você mesmo. Um belo sentimento!"
Já no Brasil a data logo de início, quando foi instituída pelo então presidente Getúlio Vargas, em 1932, esta esteve ligada ao movimento de mulheres liberais, nada revolucionário, que viam nesta data, assim como o presidente, uma forma de legitimar a "função social da mulher", ou seja, ser mãe. Feliz ficou o comércio que já há muitos anos tem o dia das mães como a data mais lucrativa para vendas do ano, perdendo somente para o Natal.
Imposição? Escolha? Função Social da Mulher* ?
Esta ideia de que a maternidade é a função social da mulher tem sido utilizada pelo patriarcado para subjugar as mulheres e colocá-las numa condição de subalternidade há centenas de anos. É claro que para manter o status e a importância, numa sociedade polissêmica, ou seja, carregada de sentidos, como a nossa, não basta impor a maternidade às mulheres, é preciso cobrir a maternidade de pompa e status. Quem nunca ouviu que a mulher só é completa quando se torna mãe? Que ser mãe é a melhor coisa do mundo? Que uma mulher que não tem filhos não cumpriu sua função no mundo?
A capacidade de conceber a vida é sim algo fundamental para que a humanidade continue a existir, quanto a isso não há dúvidas. Não só seres humanos, todos os seres vivos procriam. Mas só os seres humanos se tornam mães. Essa pequena palavra, carregada de significados sociais, históricos e políticos é ouvida e dita pela maioria de nós sem maiores reflexões. Mas o que torna uma pessoa mãe? É a escolha? É a obrigação? É o destino por se ter um aparelho reprodutor? Por que essa imposição recai especificamente sobre as mulheres, se é preciso para a concepção óvulo e espermatozoide? Por que, após a concepção, as obrigações recaem sobre as mulheres. As obrigações e a culpabilização, tanto pela escolha da maternidade como pela escolha em não ser mãe.
Escolha ter filhos ou escolha não ter filhos a culpa recairá sobre as mulheres. Ainda que ser mãe seja considerada a função social das mulheres ela é para as mulheres heterossexuais, casadas, jovens e com o mínimo de estabilidade financeira. E, é claro, desde que esta se demonstre uma mãe-modelo. Porque, a partir do momento que você aceita o cumprimento desta função, você estará eternamente sob o julgo da sociedade. Tem que ser uma boa mãe. E o que é uma boa mãe? É a mãe que encara a maternidade com resignação. Enfrenta o seu dever sem gritar. É aquela que nunca perde a paciência com os filhos. Ah, e boa mãe é aquela que abdica da vida pra ser mãe. Mulher, não, agora ela é mãe. Mãe não tem anseios pessoais, mãe não tem desejos sexuais, mãe não existe como ser. Mãe é mãe e pronto, não? Tente uma mãe sair destes moldes e vão chover todos os tipos de insultos e intromissões em sua vida, afinal, essa daí não presta pra ser mãe.
Mães são realmente pessoas fundamentais e por isso, ser mãe tem que ser uma escolha e uma escolha dada a todas as pessoas. Inclusive para as mulheres trans. Inclusive para a mulher negra, pra mulher pobre, para aquela mulher que tem que ouvir que só tem filhos pra receber benefício do governo. E ter filhos também tem que ser um direito garantido aos homens trans, assim como o direito de serem reconhecidos como homens mesmo mantendo seu útero e ovários. Ser mãe é também direito das mulheres lésbicas, sejam solteiras ou casadas com outra mulher. Ser mãe também é direito das mulheres não monogâmicas, assim como é direito delas criarem seus filhos dentro de quaisquer arranjos parentais que julguem corretos. Aliás, julgar o que é correto para a maternidade deve ser direito inalienável de todas as pessoas que escolhem a maternidade. E escolher não ser mãe é tão importante quanto. E nenhum dessas escolhas cabe a ninguém além da mulher ou pessoa que é dona de seu próprio corpo.
Empoderar as mães e empoderar as mulheres que não querem ser mães é uma luta fundamental do feminismo e deve ser uma luta para todas as pessoas que buscam uma sociedade mais justa e igualitária. Não existe humanidade sem reprodução da espécie, mas não existe liberdade sem a libertação das mulheres de suas correntes sociais. Para todos os seres e não-seres possíveis. Maternidade é hoje a palavra de ordem, seja pela afirmação, pela negação, e especialmente, pela sua ressignificação.
*é preciso destacar que a autora reconhece e defende o direito dos homens trans gerarem filhos ou não gerarem filhos, ou seja, todos os direitos reprodutivos devem ser garantidos tanto para homens quanto para mulheres trans, assim como direito à registro de paternidade/maternidade.

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