Eu sou portadora de transtorno de ansiedade e depressão. Também possuo traços Borderline. E, digo, é muito difícil viver com isso. Muito. Nossa capacidade de autoboicote e autossabotagem é IMENSA. Por mais que a gente tente trabalhar nossa mente para afastar os pensamentos criados pela crise, quem não traz consigo esses transtornos não faz a menor ideia do quanto é difícil lutar contra a força da nossa própria mente. É um exercício exaustivo tentar tirar a penumbra que cerceia nossos pensamentos, que os distorcem, que nos fazem acreditar que somos pessoas pouco amadas, incompetentes em tudo, que não merecemos o amor e o carinho das pessoas. Em crise, acreditamos nisso com uma certeza tão grande, que fica difícil, inclusive, da gente mesma se amar. Há momentos em que nós mesmas não nos suportamos, e o diabinho dos transtornos fica buzinando o tempo inteiro no nosso ouvido "se você mesma não gosta de você, por acaso vai achar que alguém possa gostar?!?!"
Esse diabinho cresce. Ele é alimentado por nós mesmas, por nossos pensamentos e por quaisquer coisas que dão errado na nossa vida. Ele é alimentado, também, pelas palavras e atitudes das pessoas e a nossa própria - e, algumas vezes, distorcida - interpretação dessas palavras e atitudes. A culpa é enorme. Culpa por não nos sentirmos amadas (apesar das demonstrações de amor que recebemos), culpa por essas coisas que dão errado, culpa por termos o(s) transtorno(s) (como se tivéssemos culpa disso!), culpa por acharmos que afastamos as pessoas, culpa por TUDO. E a culpa vai sempre aumentando essa porrada na nossa autoestima. E vira um círculo vicioso de autodestruição.
E esse diabinho é químico. Ele é produzido por nossas próprias enzimas e também cresce pela falta de produção de outras. Por isso, sim, é doença, precisa ser vista e tratada como tal. Para algumas pessoas, medicações são suficientes. Para outras, há a necessidade de outras terapêuticas alternativas. A bicicleta, por exemplo, tem sido uma grande aliada na minha própria luta pessoal contra a influência dos transtornos. Recomendo DEMAIS. Pedalar é VIDA, mas isso é bem individual, e cada pessoa vai buscando e encontrando suas próprias técnicas de reação. Sendo bem importante frisar que a terapia convencional (com profissionais da área de psicologia) é boa para todas as pessoas, inclusive as que não têm nenhum transtorno diagnosticado. Porque, infelizmente, este nosso mundo adoece mesmo as pessoas não têm predisposições (orgânica e genética) que facilitam uma alteração de nosso equilíbrio emocional. Autoconhecimento é bom para todo mundo. Mas, para quem tem transtornos de comportamento, autoconhecimento é fundamental.
E, para completar mais ainda, algumas pessoas sofrem influência climática externa para piorar sua situação emocional. Isso é tão verdade que os índices de suicídio em países frios é bastante alto, mesmo que sejam países onde a qualidade de vida é excelente, apesar dessa informação não ser consenso científico. Porém, SOL é, literalmente, VIDA para muitas de nós. Dias nublados e tempestuosos ajudam muitas mentes nubladas e tempestuosas a manterem mais fortes esse estado de escuridão, insegurança, tristeza, angústia e dor na alma. Se você vir uma pessoa depressiva na rua em um dia cinza, pode ter certeza de que ela fez das tripas coração para estar ali.
Em crise, tudo fica confuso, conturbado, difícil. Todos os problemas triplicam de tamanho e ficam insuportáveis de carregar. Decisões simples tornam-se um sofrimento sem fim. Coração acelera, doem as costas, vontade de chorar compulsivamente, sem parar. A cabeça começa a pesar uma tonelada e esse peso é realmente sentido, fica difícil até tirar a cabeça do travesseiro, sabem? Uma sensação terrível de que não há solução mais para nada - e daí iniciam-se os pensamentos suicidas - que, eu, particularmente, consigo controlar em função da existência de meus filhos <3. Então, sinal de alerta! Porque sim, o risco de morte existe e é alto. Mas praticamente TODAS as pessoas neuroatípicas, normalmente, sinalizam esse desespero e essa vontade de morrer. Fiquem sempre atentos/as aos sinais e nunca duvidem de que essa intenção pode se consolidar um dia. Pode sim, infelizmente. Mas, se houver interferência em tempo hábil, esse risco cai em 80%. Não esperem acontecer. Ajam. Suicídio tem prevenção e depende MUITO da influência de outras pessoas no momento certo.
Portanto, o nosso cérebro não pára. É muita atividade cerebral. Daí vem a insônia, por exemplo, que vai enchendo e agravando essa bola de neve de confusão mental e excesso de atividade cerebral negativa. Isso cansa MUITO, inclusive fisicamente. Muitas vezes não conseguimos reagir à força dessa atividade. Não conseguimos, inclusive, levantar da cama, de tão cansadas que estamos. E nos sentimos mal imaginando o julgamento das pessoas por essa (falta de?) reação, achamos logo que vão falar que é "fraqueza", e, na nossa cultura, não podemos ser "fracas", pois ~o mundo é dos fortes~. O corpo pede socorro e pára. Mas a mente não. E haja porrada em cima de porrada, dadas por nós mesmas em um cérebro que já está convalescente. A carga é enorme. A sensação de solidão é maior ainda, porque, na maioria das vezes, não queremos expor nossas "fraquezas" (cof cof), temos muitos medos, e um deles é o de que as pessoas se afastem de nós e nos julguem como "loucas" (olá, patriarcado!) e, por isso, evitamos nos expor. Pedir ajuda, também, significa "incomodar" para muitas de nós. E detestamos incomodar, porque nos sentimos, muitas vezes, como uma espécie de "estorvo" na vida das pessoas. Então, por esses motivos, é comum que nossa reação seja a do isolamento mesmo.
Como eu já disse antes, nós, pessoas neuroatípicas, somos nossas piores inimigas. Não alimentem essa face inimiga, não ajudem a fortalecê-la, e nos ajudem com o nosso propósito de melhorar nossa autoestima, que é o principal elemento que nos vai dar força para lutar contra o nosso 'eu' sombrio. E - principalmente - não se afastem de nós. No fim das contas, nós somos pessoas legais. :))) Eu sempre prefiro dizer que somos pessoas que, apenas, possuem algumas peculiaridades especiais nos tratos com as emoções, que precisam deixar de ser tabu, para que obtenhamos mais compreensão e apoio por parte do mundo que não faz ideia do que é SER e SENTIR assim, de forma tão intensa. ;-)
Nossa saúde agradece. <3
PS: queres um exemplo lindo de uma forma muito legal de falar conosco e da linguagem que nos faz bem? Clica AQUI e leia esse texto de amor. É muito disso que precisamos. Acolhimento. Amor. Cuidado. Abraço. Colo. Porque não é fácil sermos nós.



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