segunda-feira, 29 de maio de 2017

Dona do Raio: O Vento (Maria Bethânia)



É vista quando há vento e grande vaga
ela faz um ninho no rolar da fúria
e voa firme e certa como bala.
As suas asas empresta à tempestade
quando os leões do mar rugem nas grutas,
sobre os abismos, passa e vai em frente.

Ela não busca a rocha, o cabo, o cais,
mas faz da insegurança a sua força
e do risco de morrer, seu alimento.
Por isso me parece imagem justa
para quem vive e canta no mau tempo.

O raio de Iansã sou eu,
cegando o aço das armas de quem guerreia.
E o vento de Iansã também sou eu
e Santa Bárbara é santa que me clareia.

A minha voz é o vento de maio
cruzando os ares, os mares, o chão.
Meu olhar tem a força do raio
que vem de dentro do meu coração.

O raio de Iansã sou eu,
cegando o aço das armas de quem guerreia.
E o vento de Iansã também sou eu
e Santa Bárbara é santa que me clareia.

Eu não conheço rajada de vento
mais poderosa que a minha paixão.
Quando o amor relampeia aqui dentro,
vira um corisco esse meu coração.
Eu sou a casa do raio e do vento,
por onde eu passo é zunido, é clarão...
Porque Iansã, desde o meu nascimento,
tornou-se a dona do meu coração.

O raio de Iansã sou eu...

Sem ela não se anda,
ela é a menina dos olhos de Oxum,
flecha que mira o Sol:
Oyá de mim.


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