sexta-feira, 5 de maio de 2017

Feliz Dia das Mães (para quem mesmo?)

Ser mãe não é nem nunca foi tarefa fácil. A maternidade exige muito amor, paciência, criatividade, trabalho braçal e uma bela dose de resignação. Ser mãe-solo é precisar, muitas vezes, abdicar da própria vida e anseios pessoais em benefício da formação de um novo ser humano. É ter, em uma cultura patriarcal, que arcar com todas as cargas da formação de uma ou mais pessoas, sem a ajuda de praticamente ninguém, e ainda ter que prover o sustento e a educação desta(s) criança(s).



Ser uma mãe-solo feminista é ainda mais difícil. É se entender como formadora de uma ou mais pessoas que serão um possível elemento de mudança social e cultural. É nadar contra a maré o tempo todo, sempre “deseducando” nossas crianças do que eles aprendem com a cultura hegemônica, extremamente machista, racista e homo-lesbo-bi-transfóbica.

É quando desestimulamos os nossos meninos a reagirem sem a agressividade que é estimulada pela cultura, e os ensinamos a não serem os predadores de mulheres que querem que eles sejam, como se isso fosse um elemento fundamental à sua auto-afirmação como homens.

É tentar ensinar às nossas meninas que elas precisam aprender a galgar seus espaços, a reagirem e se defenderem de um mundo que não valoriza as mulheres nem seus feitos, mostrá-las que não é tão legal ser uma princesa dócil e submissa porque sabemos que isso as deixará mais vulneráveis às violências, enquanto a nossa cultura as estimulam a se comportarem “como uma mocinha” ou que “princesas andam sempre lindas, caladas e de pernas fechadas”.

É não explorar a mão de obra de outra mulher dentro de casa e não-terceirizar maior parte dos cuidados com as crianças para conseguirmos conquistar nosso espaço no mercado de trabalho. E isso gera uma sobrecarga humanamente impossível. Com todas as letras: IM-POS-SÍ-VEL. Dar conta da criação dessas crianças com qualidade, o que inclui rigor e afeto em doses saudáveis, sendo praticamente a única referência constante e presente na vida dessas crianças, juntamente com o ter que dar conta do trabalho fora de casa para a subsistência, e, além disso, ainda dar conta de todas as tarefas domésticas praticamente sozinha: só quem sabe o quão desgastante é ter que fazer isso tudo junto é quem vive essa realidade.



E mães, quaisquer delas, ainda precisam lidar diariamente com os julgamentos e pitacos de quem não vive a vida que ela vive. Mães são silenciadas o tempo inteiro, não podem pedir ajuda. Não podem reclamar da sobrecarga que a maternidade traz porque isto é, imediatamente, visto de forma negativa, como se esta mulher fosse um ser insensível e egoísta que não pensa nos filhos ou, mesmo, que não os ama.

Mães-solo precisam trabalhar, mas não podem levar os filhos à creche por falta de vagas, escolas públicas de tempo integral são extremamente escassas na educação infantil/ensino fundamental (ou seja, nas fases em que as crianças mais precisam de cuidados e monitoramento adulto 24 horas por dia), e também não podem levar as crianças ao trabalho, porque as empresas, quer sejam elas públicas ou privadas, não movem um dedo para que esta mãe possa ter um espaço dentro do ambiente de trabalho que deixe a criança segura e a mãe tranquila. Trabalhamos em um mundo que ainda pensa que apenas o homem é o chefe da família e que as mulheres estão dentro de casa cuidando das crianças, quando sabemos que mais de 50% das lideranças familiares são mulheres que estão sozinhas arcando com tudo.



Neste mês de maio, bem próximo ao dia das mães, é emblemático receber o presente de ser comunicada que não poderei mais levar minhas crianças ao trabalho no dia em que eles não tiverem aula. Pergunto como farei, já que a escola (pública) em que eles estudam não é de tempo integral (além de ocorrer uma quantidade enorme de dias em que não há aula) e também não há recursos para pagar uma cuidadora por mais períodos do que já se paga (sob o risco de faltar recursos para a alimentação da família), e também por não ter absolutamente ninguém da família que possa dar este suporte - pelo menos não de forma rotineira e constante, visto que todas/os têm suas próprias atribuições de trabalho.

A resposta ao meu questionamento foi um simples “se organize”. O bom e velho “se vire” ou “dê seus pulos”, só que em palavras mais formais. Detalhe é que estamos falando aqui de um órgão público do estado que luta pelos direitos das mulheres na sociedade. É isso mesmo. Imaginem em outros locais!

E não há como não pensar que, enquanto isso, um genitor vive uma vida de pessoa sem filhos, ausente dos piolhos, das mudanças de temperamento do filho que está entrando na adolescência, da adaptação à escola pública. Ausente dos xiliques que a caçula tem tido, das crises na autoestima dela, das crises de depressão de uma mãe sobrecarregada, da agonia pela falta de dinheiro e ter que pedir emprestado todo fim de mês ou que alguém consiga para ela, pelo menos, uma cesta básica para não passarem fome. Ausente de tudo, emocional e materialmente falando. Uma pessoa sem filhos.

Esperemos, então, que ele seja bastante presente junto aos companheiros de cela de cadeia. O processo já corre há cerca de três anos. Já foi arquivado e reaberto. Estamos há meses aguardando a citação. Lento. Porém, diante de um mundo em que a justiça é tão defensora dos homens e silenciadora e castradora das mulheres, fica difícil até manter as esperanças acesas.


Mas, infelizmente, o que nos resta, não é mesmo?

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