Ser mãe não é nem nunca foi tarefa fácil. A maternidade
exige muito amor, paciência, criatividade, trabalho braçal e uma bela dose de
resignação. Ser mãe-solo é precisar, muitas vezes, abdicar da própria vida e
anseios pessoais em benefício da formação de um novo ser humano. É ter, em uma
cultura patriarcal, que arcar com todas as cargas da formação de uma ou mais pessoas,
sem a ajuda de praticamente ninguém, e ainda ter que prover o sustento e a
educação desta(s) criança(s).
Ser uma mãe-solo feminista é ainda mais difícil. É se
entender como formadora de uma ou mais pessoas que serão um possível elemento
de mudança social e cultural. É nadar contra a maré o tempo todo, sempre “deseducando”
nossas crianças do que eles aprendem com a cultura hegemônica, extremamente
machista, racista e homo-lesbo-bi-transfóbica.
É quando desestimulamos os nossos meninos a reagirem sem a agressividade
que é estimulada pela cultura, e os ensinamos a não serem os predadores de
mulheres que querem que eles sejam, como se isso fosse um elemento fundamental
à sua auto-afirmação como homens.
É tentar ensinar às nossas meninas que elas precisam
aprender a galgar seus espaços, a reagirem e se defenderem de um mundo que não
valoriza as mulheres nem seus feitos, mostrá-las que não é tão legal ser uma
princesa dócil e submissa porque sabemos que isso as deixará mais vulneráveis
às violências, enquanto a nossa cultura as estimulam a se comportarem “como uma
mocinha” ou que “princesas andam sempre lindas, caladas e de pernas fechadas”.
É não explorar a mão de obra de outra mulher dentro de casa
e não-terceirizar maior parte dos cuidados com as crianças para conseguirmos
conquistar nosso espaço no mercado de trabalho. E isso gera uma sobrecarga
humanamente impossível. Com todas as letras: IM-POS-SÍ-VEL. Dar conta da
criação dessas crianças com qualidade, o que inclui rigor e afeto em doses
saudáveis, sendo praticamente a única referência constante e presente na vida
dessas crianças, juntamente com o ter que dar conta do trabalho fora de casa
para a subsistência, e, além disso, ainda dar conta de todas as tarefas
domésticas praticamente sozinha: só quem sabe o quão desgastante é ter que
fazer isso tudo junto é quem vive essa realidade.
E mães, quaisquer delas, ainda precisam lidar diariamente
com os julgamentos e pitacos de quem não vive a vida que ela vive. Mães são
silenciadas o tempo inteiro, não podem pedir ajuda. Não podem reclamar da
sobrecarga que a maternidade traz porque isto é, imediatamente, visto de forma
negativa, como se esta mulher fosse um ser insensível e egoísta que não pensa
nos filhos ou, mesmo, que não os ama.
Mães-solo precisam trabalhar, mas não podem levar os filhos
à creche por falta de vagas, escolas públicas de tempo integral são
extremamente escassas na educação infantil/ensino fundamental (ou seja, nas
fases em que as crianças mais precisam de cuidados e monitoramento adulto 24
horas por dia), e também não podem levar as crianças ao trabalho, porque as
empresas, quer sejam elas públicas ou privadas, não movem um dedo para que esta
mãe possa ter um espaço dentro do ambiente de trabalho que deixe a criança
segura e a mãe tranquila. Trabalhamos em um mundo que ainda pensa que apenas o
homem é o chefe da família e que as mulheres estão dentro de casa cuidando das
crianças, quando sabemos que mais de 50% das lideranças familiares são mulheres
que estão sozinhas arcando com tudo.
Neste mês de maio, bem próximo ao dia das mães, é emblemático
receber o presente de ser comunicada que não poderei mais levar minhas crianças
ao trabalho no dia em que eles não tiverem aula. Pergunto como farei, já que a
escola (pública) em que eles estudam não é de tempo integral (além de ocorrer
uma quantidade enorme de dias em que não há aula) e também não há recursos para
pagar uma cuidadora por mais períodos do que já se paga (sob o risco de faltar recursos
para a alimentação da família), e também por não ter absolutamente ninguém da família
que possa dar este suporte - pelo menos não de forma rotineira e constante,
visto que todas/os têm suas próprias atribuições de trabalho.
A resposta ao meu questionamento foi um simples “se organize”.
O bom e velho “se vire” ou “dê seus pulos”, só que em palavras mais formais.
Detalhe é que estamos falando aqui de um órgão público do estado que luta pelos
direitos das mulheres na sociedade. É isso mesmo. Imaginem em outros locais!
E não há como não pensar que, enquanto isso, um genitor vive uma vida de pessoa sem filhos, ausente dos piolhos, das mudanças de temperamento do filho que está entrando na adolescência, da adaptação à escola pública. Ausente dos xiliques que a caçula tem tido, das crises na autoestima dela, das crises de depressão de uma mãe sobrecarregada, da agonia pela falta de dinheiro e ter que pedir emprestado todo fim de mês ou que alguém consiga para ela, pelo menos, uma cesta básica para não passarem fome. Ausente de tudo, emocional e materialmente falando. Uma pessoa sem filhos.
Esperemos, então, que ele seja bastante presente junto aos
companheiros de cela de cadeia. O processo já corre há cerca de três anos. Já
foi arquivado e reaberto. Estamos há meses aguardando a citação. Lento. Porém,
diante de um mundo em que a justiça é tão defensora dos homens e silenciadora e
castradora das mulheres, fica difícil até manter as esperanças acesas.
Mas, infelizmente, o que nos resta, não é mesmo?



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